A tese analisa os modos como dois grandes jornais brasileiros construíram narrativas sobre crime sexual contra a mulher ao longo de cem anos: o Jornal do Brasil e O Estado de S. Paulo, entre 1910 e 2010. O estudo se ancora na seguinte pergunta: como a violência contra a mulher foi narrada por esses diários dentro do período elencado e por que foi narrada daquela forma? A problematização teórica parte do diálogo de alguns marcos conceituais considerados como complementares e que atravessam o objeto: historicidade, narrativa, feminino/patriarcado. Metodologicamente, essa é uma pesquisa interpretativa (RICOEUR, 1976), com utilização de fontes documentais primárias nos acervos digitais dos dois diários e nos dois Códigos Penais vigentes no século XX e no começo do século XXI. A análise se constitui de uma dimensão sócio-histórica, combinada com uma análise textual. O corpus, contendo 740 textos, foi construído a partir de um recorte temático, a saber, conteúdos jornalísticos que citassem termos relativos à violência sexual contra a mulher encontrados pela busca de palavras-chave nas edições dos dois jornais dentro do intervalo temporal estabelecido. Ao fim do estudo, a noção de crimes patriarcais se apresenta como proposta de substituição à expressão crime sexual, em função do caráter altamente opressor que perpassa tais delitos. Como conclusão, a investigação aponta para um silenciamento estrutural da violência patriarcal no JB e no Estadão, bem como para a culpabilização e desqualificação das vítimas e a consequente minimização da responsabilidade dos agressores. Ao atuarem dessa forma, os jornais contribuem para a perpetuação da lógica patriarcalista. No entanto, essa conduta não pode ser interpretada como uma prática isolada da imprensa, mas como um agir que encontra eco na própria tessitura social.
The dissertation analyzes the ways in which two major Brazilian newspapers built narratives about sexual crime against women over a hundred years: the Jornal do Brasil and O Estado de S. Paulo, between 1910 and 2010. The study is anchored in the following question: how was violence against women narrated by these papers within the listed period and why was it narrated that way? The theoretical problem starts from the dialogue of some conceptual frameworks considered as complementary and that cross the object: historicity, narrative, feminine/patriarchy. Methodologically, this is an interpretative research (RICOEUR, 1976), using primary documentary sources in the digital collections of the two papers and in the two Penal Codes in force in the 20th century and at the beginning of the 21st century. The analysis consists of a sociohistorical dimension, combined with a textual analysis. The corpus, containing 740 texts, was assembled from a thematic cut, namely, journalistic content that cited terms related to sexual violence against women found by searching for keywords in the editions of both newspapers within the established time interval. At the end of the study, the notion of patriarchal crimes is presented as a replacement proposal for the expression sexual crime, due to the highly oppressive character that permeates such crimes. As a conclusion, the investigation points to a structural silencing of patriarchal violence in JB and Estadão, as well as to blame and disqualify the victims and the consequent minimization of the aggressors' responsibility. By acting in this way, newspapers contribute to the perpetuation of patriarchal logic. However, this conduct cannot be interpreted as an isolated practice of the press, but as an action that finds an echo in the social system itself.