Entre Armas e Letras.... Do Timor-Leste à Guiné-Bissau: o narrar para resistir nas obras poéticas Uma casa e duas vacas (2000) de João Aparício e No fundo do canto (2007) de Odete Semedo
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O trabalho que ora se apresenta busca refletir sobre a narrativa literária do conflito sócio-político enquanto mecanismo de fortalecimento de uma literatura de memória e resistência, analisando como essa narrativa se desenvolve nas obras No fundo do canto (2007) da guineense Odete Semedo e Uma casa e duas vacas (2000) do timorense João Aparício, uma vez que essas obras poéticas estão balizadas em um contexto de conflitos sociais intensos na Guiné-Bissau e no Timor-Leste. A obra de Semedo, por seu caráter memorialístico em tratar dos conflitos intensos ocorridos no período de 1998/1999, os quais deixaram amargas lembranças para o povo guineense, em conjunto com a obra de João Aparício, que se insere no bojo das consultas populares para decidir se o país tornar-se-ia independente ou integrado à Indonésia, num cenário de dor e morte, fornecem o campo ideal para que se possa promover uma análise comparatista de suas poéticas de modo a observar como o processo de fortalecimento da resistência nacional é formulado pelos autores. Os conflitos sociais descritos literariamente na Guiné-Bissau e no Timor-Leste são significantes para entendermos a dinâmica de produção de uma literatura de resistência, assim como para evidenciar uma obra que busca recontar a história das guerras, golpes e abalos nacionais, para negociar uma identidade nacional, ressignificar o sentido nacional e fazerem-se visíveis diante de toda marginalidade a que foram submetidos ao longo de séculos. Trata-se, pois, de um resistir para existir
The work that now presents seeks to reflect on the literary narrative of the conflict as a mechanism for strengthening a literature of memory and resistance, analyzing how this narrative develops in the works No fundo do canto (2007) of the Guinean Odete Semedo and Uma casa e duas vacas (2000) of the Timorese João Aparício, since these poetic works are marked in a context of intense conflicts in Guinea-Bissau and Timor-Leste. Semedo's work, for its memorialistic character in dealing with the intense conflicts that occurred in the period of 1998/1999, who left bitter memories for the Guinean people, together with the work of João Aparício, which is part of the bulge of popular consultations to decide whether the country would become independent or integrated to Indonesia, in a scenario of pain and death, provide the ideal field for promoting a comparatist analysis of their poetics in order to observe how the process of strengthening the national resistance is formulated by the authors. The conflicts described literally in Guinea-Bissau and Timor-Leste are significant to understand the dynamics of production of a literature of resistance, as well as to evidence a work that seeks to retell the history of wars, coups and national shocks, to negotiate a national identity, resignify the national sense and make themselves visible before all marginality to which they have been submitted over centuries. It is therefore a resist to exist