Com o intuito de refletir sobre as novas expressões ficcionais do corpo na literatura francesa do século XX, a tese propõe uma análise do papel crucial que as imagens de corpos metamorfoseados assumem na produção literária de dois autores franceses: André Pieyre de Mandiargues, autor surrealista da década de 1950 cujos contos narram experiências de caráter sexual, e Sylvie Germain, autora da segunda metade do século cujos romances são caracterizados pela incorporação insólita de acontecimentos históricos. Considerando que a poética dos dois autores apresenta características que se inscrevem em um longo passado literário, salientamos as relações arquitextuais que suas obras articulam com categorias empregadas pela literatura crítica – especialmente com a gama de conceitos pertencentes ao terreno do insólito ficcional, como “fantástico”, “maravilhoso” e “realismo maravilhoso”. Após a delimitação dos aspectos formais que contribuem para a constituição da iconografia insólita do corpo, analisamos os processos de subjetivação que engendram tais imagens nos textos dos dois autores. Sustentando a hipótese de que tais obras manifestam, pelo viés da metamorfose, a dimensão inconsciente do sujeito, adotamos como eixo teórico algumas das categorias analíticas que constituem o universo conceitual de Sigmund Freud. Por fim, propomos o exame de tais representações do corpo à luz do conceito de “grotesco”, fundamental à compreensão das técnicas de figuração ficcional e dos sentidos conferidos à iconografia do corpo na obra dos dois autores, dialogando com reflexões propostas por Victor Hugo, Wolfgang Kayser e Mikhail Bakhtin