Este trabalho parte de recortes clínicos, nos âmbitos público e privado, em que questões ligadas ao corpo e às ambiguidades sexuais se destacam. O objeto da pesquisa consiste na proposta acerca da experiência trans, tendo como objetivo investigar a articulação entre o ser falante e a inscrição do corpo sexuado. O método psicanalítico foi adotado tomando como referência teórico-conceitual a obra de Freud e o ensino de Lacan, além das contribuições de outros autores. Promoveu-se também um diálogo entre a psicanálise e outros campos, como a filosofia, os feminismos e o movimento queer. Inicialmente, sustenta-se a proposta acerca da experiência trans quanto à escolha do termo, seu conteúdo e as noções psicanalíticas chave para articulá-la. Em seguida, retoma-se o percurso freudiano acerca da diferença sexual. Observa-se que a aparente contradição entre destino anatômico e deriva acerca da origem da diferença sexual constitui um paradoxo, pois a organização edípica tributária à castração não apaga os rastros da sexualidade infantil, então aproximada ao enigma da mulher . Posteriormente, trabalha-se a indicação lacaniana de que a realidade é estruturada como uma ficção para organizar os choques com o real. Com base na formalização da metáfora paterna, entre outros desdobramentos sobre as psicoses, nota-se a articulação entre inscrição no laço social, apropriação da linguagem e forjamento sexuado do corpo. As ideias de fronteira e litoral são analisadas como leituras para a diferença nos arranjos de Um e Outro. Depois, o sexo é observado tangente ao ser e ao problema de sua existência. Examina-se a função fálica, principalmente em seu aspecto variável escrito como incógnita x . Por meio do não todo fálico, chega-se ao horizonte da teoria lacaniana do sinthoma, trabalhada por Morel como relativa à sexuação. Conclui-se que a sexuação é uma operação singular de tratamento de gozo pautada nas generalizações vigentes no laço social. Uma vez que o corpo sexuado é tão íntimo quanto público, considera-se a ênfase na experiência trans como uma posição pelo enlace ético, clínico e político no campo da psicanálise