Esse trabalho desenvolve uma reflexão acerca de três romances do autor português António Lobo Antunes e um romance do autor angolano Artur Carlos Maurício Pestana dos Santos (Pepetela) que tratam da Guerra Colonial (1961-1974), ocorrida entre Portugal e três de suas ex-colônias na África. A reflexão parte da trilogia de guerra de Antunes Memória de elefante (1979), Os cus de Judas (1979) e Conhecimento do inferno (1980) nos quais se procura mostrar, através de uma análise apoiada nos conceitos psicanalíticos desenvolvidos por Freud e Lacan, como o personagem-narrador, ao retornar de Angola e assumir seu trabalho como médico psiquiatra em Lisboa, se mostra atormentado pelas lembranças que o impedem de refazer sua vida. No fim, o personagem acaba por abrir mão do desejo e investe no gozo e essa escolha se pauta na experiência traumática que viveu em Angola, ao ser convocado para a guerra. Após a análise de um discurso português sobre a guerra em Angola, representado pela referida trilogia, procede-se à análise de um discurso angolano, representado pelo romance Mayombe (1980), do autor angolano Artur Carlos Maurício Pestana dos Santos (Pepetela). Nesse romance, a guerra em Angola é vista pelos guerrilheiros que se encontram na floresta de Mayombe, em Cabinda. Vários personagens do romance assumem a narração, tecendo um discurso singular sobre os conflitos e sobre suas vidas. Entre os personagens, destaca-se o Comandante Sem Medo o único que não faz qualquer narração no romance, mas que, ao mesmo tempo em que formula respostas à necessidade e à justeza da guerra contra o colonizador, enfrenta alguns problemas como a luta de prestígio que João, o Comissário Político, a quem considera como filho, começa a travar com ele. A guerra de Angola suscita, então, na trajetória desses personagens um encontro com outras guerras que, paralelamente àquela, ganham relevância nessas ocasiões de grande conflito ou nos momentos imediatamente posteriores a eles. A guerra em Angola e as guerras pessoais que os referidos personagens têm de enfrentar em seu cotidiano acabam por provocar o encontro dos mesmos com a morte seja a morte do sujeito desejante, seja a morte propriamente dita