Este texto apresenta o resultado da pesquisa desenvolvida no Mestrado no âmbito do Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade do Extremo Sul Catarinense PPGE/UNESC, intitulada Moças “invadindo” o espaço masculino: a Escola Técnica da Sociedade de Assistência aos Trabalhadores do Carvão nos anos de 1970. A Sociedade de Assistência aos Trabalhadores do Carvão (SATC) foi criada em 1959, por iniciativa da Indústria de Extração de Carvão Mineral da Região Carbonífera de Santa Catarina, para atender os trabalhadores do carvão, tanto no campo assistencial, com o objetivo de amenizar os problemas decorrentes do crescente desenvolvimento na região, quanto no campo de assistência educacional, para qualificar mão de obra para o mercado de trabalho. Somente em 1975 foi que a Escola abriu suas portas para a inserção de mulheres, num espaço até então predominantemente masculino – o que se constitui no tema desta pesquisa. Este estudo objetivou investigar a presença das primeiras alunas que ingressaram nos cursos técnicos da SATC no início da década de 1970. Para desenvolver o tema foram estabelecidas algumas questões norteadoras: O que levou os gestores da SATC a decidirem pela inserção das mulheres nos cursos técnicos ofertados a partir de 1970? Como os documentos oficiais da SATC registraram esse acontecimento? O que fundamentou essa ação institucional? Quais os discursos que sustentaram essa política de inserção das mulheres? Quais as motivações das primeiras alunas para o ingresso na Escola Técnica? Quais regras e disciplinas foram instituídas pela Escola Técnica após a entrada das primeiras alunas? Como foi a relação das alunas com professores e colegas? Como foi o ingresso no mercado de trabalho? Para esse estudo, foram analisados documentos, publicações e notícias acerca do tema, além da realização de entrevistas com três gestores, um professor e quatro das nove primeiras alunas que se matricularam na SATC em 1975. Estudos sobre memória, história oral, relações de poder e gênero fundamentaram a metodologia de pesquisa e a presente análise, possibilitando inferir que a inserção das mulheres no espaço predominantemente masculino da SATC, configurou-se como um processo de “invasão”, motivado principalmente por questões econômicas. Os discursos registrados nos documentos oficiais da escola evidenciaram que tal decisão foi motivada pela abertura do mercado de trabalho para a mão de obra feminina, mas, deixa fortes indícios de que a questão econômica também influenciou, uma vez que, existia uma preocupação com o baixo número de matrículas realizadas ano anterior. Não houve novas regras com a entrada das mulheres, mas, a pesquisa constatou que a vigilância, justificada pelo cuidado com a sexualidade, já que a relação com os colegas era cercada de namoricos, foi fortemente ampliada. A resistência permeou pela relação com os professores, bem como, com o mercado de trabalho, que era fundamentado pela divisão sexual do trabalho. Diante disso, podemos dizer que esse processo mesmo cercado por barreiras, transgressões, resistências, restrições e desigualdades, significou para as mulheres e para a sociedade um avanço no que diz respeito às relações de gênero. Marcado por rupturas e acompanhado por conflitos, foi um processo que abriu as portas da educação e do mercado de trabalho, após a década de 1970, para inúmeras outras mulheres.